sexta-feira, 9 de maio de 2014

Um pouco de perspectiva ou como olhar uma fotografia.

Existem fotos que olhamos e sentimos diversas sensações, que pode ir do deslumbramento a uma sensação de estranheza. Estas sensações  tem sua origem no que representa a imagem para cada pessoa. Mas algumas das sensações podem ser enfatizadas ou reduzidas dependendo de como é registrada a imagem.

Para entender esta questão de origem mais técnica, devemos considerar algumas coisas: (a) em uma câmara fotográfica, a imagem de um conjunto de objetos é projetada em um plano aonde está localizado o sensor; (b) a posição relativa da câmara em relação ao(aos) objeto (objetos) capturados pela câmara e a posição que olhamos a imagem. Existem outras questões importantes , como o tipo de objetiva utilizada, mas vamos nos concentrar no momento nos dois itens acima.

No nosso cotidiano, utilizamos a nossa capacidade de reconstruir imagens tridimensionais (noções de profundidade, distâncias etc) desenvolvida ao longo de toda evolução humana, sendo composta basicamente pela nossa visão binocular e a capacidade de processamento do nosso cérebro. Ao longo da nossa vida, acumulamos um "catálogo" de imagens, que nos permite reconhecer diferentes objetos, se são inofensivos ou perigosos. Muitas imagens sendo associadas a sensações bem particulares, como de bem estar, alegria, medo etc. Mesmo quando não obtemos uma imagem completa, possuímos a capacidade de interpretar o que está sendo observado, fazendo uma associação  com alguma das imagens do nosso catálogo. Esta capacidade sem dúvida alguma foi (e ainda é) muito importante para os nossos antepassados, que precisavam fugir dos predadores. Não precisavam ter uma imagem completa, bastava um simples "vislumbre" do predador e isto dava uma vantagem na hora da fuga. É o velho ditado, melhor prevenir do que remediar, fugir mesmo que não seja um predador real, do que ficar para comprovar que é o predador! É claro que isto tem também desvantagens: reconhecemos padrões em coisas completamente aleatórias!  Por exemplo reconhecemos rostos em manchas em janelas, pedaços de pão, na superfície de Marte.  E isto tem um nome Pareidolia. Mas voltemos para nosso texto.

Em uma foto perdemos a tridimensionalidade, pois a imagem está registrada em um plano e com a utilização de apenas um "olho" - a objetiva da câmara.  Para interpretar adequadamente a fotografia recorremos ao nosso "catálogo" de imagens, as nossas experiências, para interpretar a foto de forma que seja a mais próxima do nosso mundo tridimensional.

Quando o plano do sensor está alinhado com o plano (ou planos) aonde estão contidos os objetos fotografados, não estranhamos muito a imagem obtida , assumindo que estamos utilizando uma objetiva considerada normal  e considerando que a câmara esteja em uma posição muito próxima da altura dos olhos. Mas se uma destas condições forem alteradas, a imagem registrada  pode nos passar diferentes sensações.




Na foto acima, registramos duas canecas de tamanhos diferentes, posicionando a câmara em três posições distintas. No centro a câmara está equidistante das duas canecas, na foto da direita a câmara está posicionada bem próximo da caneca menor e na foto da esquerda está posicionada próximo da caneca maior. A simples modificação no posicionamento da câmara altera a nossa percepção da imagem.  Se olharmos apenas a foto da direita, a primeira impressão é que a caneca branca é praticamente do tamanho da caneca com o Mestre Yoda.


Uma situação diferente ocorre quando o plano focal não é paralelo aos objetos , que ocorre por exemplo, quando fotografamos uma prédio de baixo com a câmara inclinada para tentarmos incluir todo prédio na foto.



Uma maneira de evitar esta distorção é manter o plano focal sempre paralelo ao objeto fotografado - no caso o prédio. Em geral, precisamos afastar mais do prédio ou como na parte direita da foto anterior registrar apenas uma parte do prédio, o que nem sempre é possível ou desejável!  Mas existem câmaras e também objetivas especiais que tornam este processo possível sem a necessidade de se afastar do prédio (ou de qualquer outro objeto). No caso das objetivas são as denominadas objetivas tilt-shift, que são muito úteis para fotografias de arquitetura e outras aplicações. Para quem estiver interessado, uma leitura inicial pode ser efetuada neste texto (em inglês, pois o texto em português está muito simples, com poucas informações) do  wikipedia.

Os exemplos acima ilustram como o posicionamento da câmara em relação ao objeto a ser registrado, influenciam no resultado final. Desejando uma imagem a mais próxima da real, devemos cuidar do posicionamento da câmara, considerado a sua distância e orientação, sempre considerando a possível distância e posicionamento que a mesma será observada. Mas este não é uma regra fixa! Muitas fotos interessantes são produzidas quando assumimos pontos de vista diferente do usual. E de qualquer forma, o posicionamento da câmara deve ser escolhida de acordo com o que desejamos enfatizar. Por exemplo, podemos combinar os diferentes posicionamentos e  profundidade de foco para obter resultados bem diferentes, mesmo registrando os mesmos objetos.


Na foto anterior, na esquerda o posicionamento da câmara está acima dos objetos, com o foco apenas na xícara de café. Na direita o posicionamento da câmara é praticamente na altura da mesa, e agora enfatizando a torta e não o café e neste caso, não temos visão do livro. Notemos que a foto da esquerda é a mais próxima da nossa visão real (estamos olhando por cima) apenas enfatizando (focando) o café, que é o que desejamos chamar a atenção. Na foto da direita, o posicionamento não é a normal (exceto se estivermos deitado na mesa, o que convenhamos, não é muito comum), mas serve para enfatizar o pedaço da torta.


Estas mudanças no posicionamento correspondem a uma mudança na perspectiva com que olhamos (com a câmara) nossos objetos. A perspectiva é um elemento muito importante na composição de uma imagem, sendo um tema que merece ser aprofundado por qualquer pessoa interessado em fotografia. Alterar a perspectiva, pode tornas um simples objeto, algo mais interessante como na foto acima de uma folha seca no chão. Muitos fotógrafos utilizam diferentes perspectivas, mesmo sem um conhecimento do assunto, utilizando seus conhecimentos práticos. Mas vale a pena dar uma lida e estudar temas como a perspectiva, para entendermos melhor o que está envolvido na composição de uma imagem.

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